Tetro
Quinta, 19 Novembro 2009 18:39
Tetro

-Coppola continua a ser Coppola.

 

 

 

 

Podemos assumir que Francis Ford Coppola já não deve nada a ninguém. E esta afirmação não pode ser lida apenas literalmente. Depois de deixar a sua marca em Hollywood (trilogia O Padrinho e Apocalypse Now à cabeça), Coppola trabalhou para conseguir a almejada independência económica – resolvendo dívidas de anos. E nesta fase da carreira, como o próprio já explicou algumas vezes, decidiu fazer só os filmes que quer, independentemente da crítica, do público e de qualquer imposição do mercado.

 

Depois de Uma Segunda Juventude, que pretendia ser maior do que a vida – e que falhou em parte por isso mesmo –, chegamos a este Tetro.

 

O filme coloca-nos a família como epicentro da discórdia. O talento corre nas veias desta família, mas a rivalidade assume-se como veneno capaz de destroçar os laços familiares. E assim conhecemos Tetro, a personagem, num papel que parece feito à medida de Vincent Gallo.

 

O ar irreverente (e isto é um eufemismo), o génio que enlouquece com o próprio trabalho, até a própria sombra da figura paternal, não fazem um personagem original. Ainda assim não sentimos que Tetro se perca pelos lugares comuns de um qualquer artista incompreendido. E Gallo, aqui de grande entrega, consegue prender-nos a cada plano próximo, como se nos observasse com um olhar dilacerante.

 

Em termos de fotografia, o filme é soberbo. E até a brincadeira de filmar o presente a preto e branco, e o passado a cores, funciona na perfeição. É verdade que o argumento nem sempre é consistente – parece um pouco apressado nalgumas cenas. Mas este será daqueles casos em que a forma ofusca o conteúdo. E é a caminho do final, em que o tom é quase operático, até mesmo de tragédia, que o filme ganha força.

 

Não é o melhor Coppola. Nem tão pouco será o Coppola mais acessível – isto se alguma vez teve sentido falar em “acessível” quando se trata de Coppola. Mas é um filme de risco, de um realizador que já não tem nada a provar. E quando é assim, entre manter-se na sua “área de conforto” ou lançar-se numa aventura independente, Coppola escolheu o caminho corajoso. E Tetro sobreviveu para contar a história.

 

 

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