| Ágora |
| Quinta, 10 Dezembro 2009 18:32 | ||||||
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Por vezes é um exercício despropositado de violência. Outras, é um triângulo amoroso que nunca o chega a ser – porque nada se consuma. Há momentos em que é um ensaio sobre a discriminação e intolerância, noutros parece um tributo à ciência e à capacidade de a mente humana desafiar crenças e paradigmas. Há cristãos, pagãos e judeus ao barulho. E no meio de tudo isto o filme acaba por se perder.
Conhecemos Hipátia (Rachel Weisz), independente, filósofa e matemática, uma mulher à frente do seu tempo que se preocupou com a teoria heliocêntrica muito antes de ser consagrada. Conhecemos também dois dos seus ouvintes, um escravo cristão e um aluno a caminho de uma carreira de relativo poder. O desperdício de tempo de tela que é dado a este pseudo-triângulo amoroso nunca chega a ser justificado. Mas o mais perigoso é a constante vontade de Alejandro Amenábar mostrar a violência.
Sucedem-se as turbas de revoltados, num exercício sobre o fanatismo que se perde cedo, mostrando-nos o que já sabemos. A ignorância leva à intolerância. No meio disto, o fanatismo anda de mãos dadas com a violência (nesse aspecto a mensagem de Ágora é actual, religiosa e politicamente). Mas o que no filme começa por não ser simples, nem óbvio (e que tem mérito por isso mesmo), acaba por se perder num exercício inconstante e até inconsequente.
Vamos por partes: não se espera o politicamente correcto quando se trata de violência – o cinema, enquanto arte, dispensará esses constrangimentos. Mas em Ágora quase somos contagiados pela mesma ignorância e sentimento de revolta que se quer denunciar. Como se aos poucos também nós nos arrogássemos da consciência sobre tudo o que estamos a ver, e nos preparássemos para apedrejar a própria ignorância que é retratada.
Tecnicamente há cuidado estético, desde os cenários e guarda-roupa, passando pelo realismo nas cenas de violência até à banda-sonora. Mas nunca chega a ser cativante. Ainda que Rachel Weisz seja impecável (igual a ela própria, portanto), ainda que Amenábar saiba filmar (o que também não é novidade), no final, Ágora acaba por desiludir.
Na tentativa de nos educar sobre a intolerância, Amenábar vai batendo na mesma tecla, pancada atrás de pancada, até que o som se torna ensurdecedor.
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