| Whatever Works - Tudo Pode Dar Certo |
| Quinta, 04 Fevereiro 2010 18:47 | ||||||
Uma comédia romântica de Woody Allen?
Cinco anos depois ele voltou à Big Apple.
Deste Woody Allen “europeu”, ocorre-nos dizer que se o realizador tivesse passado boa parte do tempo a filmar a reprodução de aves no Botswana, ou qualquer outra coisa estapafúrdia, seria irrelevante. Afinal de contas durante este período europeu realizou Match Point e Match Point vale ouro.
Ainda assim, esta “despedida” europeia deu-se com o agradável ritmo e sentido de humor de Vicky Cristina Barcelona. Essa sarcástica boa disposição voou com ele no regresso a Nova-Iorque e aqui estamos hoje, com este Tudo Pode Dar Certo, que não é genial, que não tem uma grande história mas que tem diálogos e personagens hilariantes.
Conhecemos Boris Yellnikoff, interpretado por Larry David (co-criador de Seinfeld), que faz aqui a vez de Woody Allen. O curioso é que Larry David e Woddy Allen, dos tiques ao sentido de humor, são bastante parecidos. O tom auto-depreciativo, o sarcasmo constante e os diálogos rocambolescos têm tudo a ver com os dois. E marca-se aqui também um recuperar de outros tempos do realizador, aliás, o próprio argumento há muito que havia sido escrito (em 1977) e foi agora actualizado para os nossos dias.
O motor de Tudo Pode Dar Certo é mesmo Boris, que esteve quase a ser um dos possíveis nomeados para o Nobel. Neurótico, escatológico, hipocondríaco e a viver num pânico existencialista, Boris consegue em duas frases insultar quem o ouve, declarar-se um génio e anunciar o fim da humanidade. É uma proeza que não deve ser menosprezada. Tal como o monólogo inicial, com Boris a falar directamente para a câmara. Ele está convencido de que é o único a entender a big picture e ultrapassa o ecrã para falar connosco, espectadores.
Temos alguns temas actuais ao barulho (da homossexualidade a Barack Obama), temos os “psicóticos religiosos” da direita conservadora americana e temos os artistas nova-iorquinos liberais. E há personagens estereotipadas que chegam ao final do filme completamente transformadas – e cuja transformação provoca algumas das gargalhadas mais sonoras.
No final, é a ideia do amor possível (whatever works…) que acaba por recentrar as personagens e concluir a narrativa. É também um final possível, sem brilhantismo mas que encerra de forma competente uma hora e meia de alucinados diálogos.
É claro que Woody Allen já fez melhor. E há uma tentação natural em esperarmos mais dele. Mas a inteligência e o sentido de humor continuam por aqui. E sim; perdoe-se a tirada óbvia mas esta comédia tem tudo para dar certo.
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