| Precious |
| Segunda, 15 Fevereiro 2010 02:04 | ||||||
Há muito tempo atrás...
Há muito tempo atrás num festival de Sundance longínquo, Precious conquistava o prémio do público. Estamos prestes a chegar aos Óscares e a América rendeu-se ao filme. As seis nomeações (incluindo melhor filme e realizador) são a simples consequência desse fascínio.
Precious (Gabourey Sidibe) é uma rapariga gorda que aos 16 anos já teve uma quota de sofrimento que poucos poderiam aguentar. É gozada e está grávida do segundo filho. Inconsciência? Não. Precious foi violada pelo pai. E o pai é também o pai dos filhos de Precious. A mãe (Mo’nique) consentiu. Consentiu e culpou-a e agora trata-a da pior maneira possível. Vive no sofá, em frente à televisão, numa subsidio-dependência voluntária: e insulta e agride a filha, porque parece não ser capaz de fazer melhor.
Dizer que Precious é um drama é uma verdade de La Palice. O receio está em saber se o filme se perde por isso mesmo, que é como quem diz, se é choramingas na sua essência, como uma qualquer telenovela venezuelana. A bem de serenidade avisamos que não.
É violento, é dramático e não nos deixa confortáveis. Mas o mérito do realizador Lee Daniels está em saber dar-nos uma história difícil sem a tornar intragável. É verdade que tem as suas imperfeições (momentos como ela a imaginar-se uma estrela parecem sempre caídos do céu), mas temos aqui excelentes interpretações – com destaque para mãe e filha, é certo, mas inclui-se uma irreconhecível Mariah Carey. E uma história poderosa.
Lee Daniels não nos força a encontrar beleza aqui. Pelo contrário, primeiro apresenta-nos o grotesco, chegando ao ponto de nos mostrar Precious a roubar frango gorduroso, logo pela manhã, para acabar a vomitar. Mas a beleza continua lá, e a história volta a cativar-nos sem correr o risco de cair num qualquer patético e incongruente final feliz.
Precious, a rapariga, é seca e abrutalhada quando nos conta a sua vida. E ao mesmo tempo parece resistir à desistência. O filme tem também essa ambiguidade. É também uma história de coragem a sair desta América negra. Não falamos do cinema contestatário de Spike Lee. Falamos numa América desprotegida, criada em guetos, que convive lado a lado com a luta inglória por uma vida melhor.
É terrível e impressionante, mas nunca queremos desistir do filme. É esse o grande mérito de Precious. Se o sonho americano ainda existe, então deve ser este pequeno ponto de esperança que insiste em não se apagar.
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